domingo, 25 de maio de 2014

Diálogo: Cristion Vs Áteon. Érick Freire

3 comentários
Como em todas as tardes Cristion costumava passear pelo jardim botânico dentro do parque natural da cidade. Aproveitava o fim da tarde e início da noite para pensar ao pôr do Sol, refletir sobre a vida, procurar respostas interiores a suas indagações e crises internas.
Na última tarde teria pensado sobre a existência, refletiu sobre por que e como existem as coisas. Como um autêntico cristão tudo em sua mente parte do poder de, como ele pensa, o Autor da existência. Aquele que fez todas as coisas.
Cristion para e começa observar a vegetação daquele belíssimo parque. Ama as flores e passa a mão em algumas sentindo a textura de cada belíssima obra natural de arte. Copos de leite, lírios, margaridas até belíssimas rosas vermelhas. A cada instante além de tocá-las sentia o seu olor. Se emociona pela rica variedade de vida que estava a sua frente. A percepção do seu corpo não era simplesmente química, mas havia uma alquimia entre ele e as plantas como fosse fundir-se a natureza. Cristion é um apaixonado pela vida, pela existência e por seu Criador.
Anda mais um pouco e se permite adentrar entre as árvores após aquele jardim, mas ainda dentro do parque municipal. Para diante de um pau-brasil e começa a observar as fissuras daquele tronco, observa as rugas do caule, as folhas verdinhas. Passa a mão acarinhando aquela grande e forte árvore que tinha pelo menos uns 50 anos. Começou a pensar sobre como ela teria vindo a existência. Quem a teria plantado? Será que quem a plantou ainda esteja a existir? O que é existir? E ficou com esta indagação procurando a resposta na introspecção.
Neste mesmo instante aparece Áteon um amigo de Cristion. Áteon sabe que seu amigo costuma meditar no parque municipal e é nele que também é criado os melhores diálogos entre os dois amigos. Áteon sempre gosta de testar seu amigo com perguntas sagazes e muito desconcertantes. Cristion já está acostumado a isso e trata sempre o seu amigo com respeito e dignidade apesar das diferenças de crença. Enquanto Cristion professa a fé cristã reformada Áteon crer na não crença em algo superior ao ser humano, para ele, crer em algo superior é coisa de quem tem uma mente fraca e que foge da realidade tangível das coisas.
Áteon se aproxima de Cristion e solta a sua primeira logo depois de cumprimentar o amigo:

(Áteon)    - Cristion, como vai amigo?
(Cristion) - Bem.
(Áteon)    - Meditando?
(Cristion) - O que parece?
(Áteon)  - Tenho certeza que vou provocar você.
(Cristion) - Como?
(Áteon)    - Deus não existe!
(Cristion) - Concordo.

Áteon fica sem entender. Sabia até aquele instante que seu amigo era um apologista convicto de sua fé em Deus e no messias e agora concordara com ele que Deus não existe. O que será que houve com ele? (Pensou Áteon)


(Áteon)   - Tu me dizes que concordas? Não és cristão e crês em Deus?
(Cristion)- Áteon, o que é existir? Não seria o existir o ato de ser criado?
(Áteon)   - Sim.
Cristion)- Para um relógio existir precisa que alguém o faça existir. Quem seria este?
(Áteon)   - O relojoeiro?
(Cristion)- Sim. Para que todas as funções do relógio funcionem precisa que o relojoeiro o faça. E para que ele se movimente. Do que precisa?
(Áteon)   - Uma pilha, bateria ou corda.
(Cristion)- Pois bem. E o relojoeiro é maior ou menor que o relógio?
(Áteon)   - Maior, com certeza!
(Cristion)- Então o sapateiro é maior que o sapato, o alfaiate maior que a roupa, o homem é então maior que os objetos que cria. Concorda?
(Áteon)   - Indubitavelmente.
(Cristion)- Podemos dizer então que a criação está sujeita ao criador?
(Áteon)   - Exatamente.
(Cristion)- Agora há um dilema. Para algo existir deve haver algo maior que o objeto existente para que passe a existir e sendo assim é necessário que sempre haja alguém maior que o outro, ou seja, uma criação depende de um criador. E aí é que não entendo. Quem poderá ter criado o homem?
(Áteon)   - O Big bang?
(Cristion)- E o que é o Big bang?
(Áteon)   - Uma explosão de massa concentrada.
(Cristion)- Áteon. Seja-me sincero. Achas que uma explosão cria algo? Qual a explosão vistes ser organizada?
(Áteon)   - Não. Nenhuma.
(Cristion)- Pois bem. Se uma explosão não pode criar, mas destruir. Então o que teria criado o homem?
(Áteon)   - A evolução?
(Cristion)- O que é a evolução?
(Áteon)  - É progresso de uma espécie inferior à uma espécie superior.
(Cristion)- Como algo inferior pode se tornar superior fisicamente? É lógico um ser de uma única célula recorrer-se a evoluir se tornando um ser tão complexo quanto o homem?
(Áteon)   - Creio que não.
(Cristion)- A mente humana é tão complexa que para nutrirmos e criarmos o mais simples pensamento e ideia inúmeras reorganizações e ligações nervosas são feitas. Será que é tão simples evoluir um ser sem se quer um cérebro até chegar a um ser pensante e construtor de ideias como o homem?
(Áteon)   - Pouco provável Cristion.
(Cristion)- Será então que há a possibilidade de haver alguém superior ao homem que o tenha criado?
(Áteon)   - Possibilidade? Mas, você concordou que Deus não existe?
(Cristion)- Isso.
(Áteon)   - Então como resolver este dilema?
(Cristion)- Ora caro Áteon. Concordei que Deus não existe. Mas isso não tirou o direito dEle ter sua ontologia. Ou seja, o seu ser sempre sendo como sempre foi estando. Deus não existir não é o mesmo que Deus não o ser. Concorda?
(Áteon)   - Como assim?
(Cristion)- Para existir precisa-se de uma criação, como já debatemos. Concorda?
(Áteon)   - Claro.
(Cristion)- O caso é que Deus não foi criado, então concluo que Ele não pode existir. Entende?
(Áteon)   - Categoricamente.
(Cristion)- Mas, isso não pode inferir que Ele não o é. Ou seja, não existir não é sinônimo de não ser.
(Áteon)   - Compreendo.
(Cristion)- Então. Deus é supremo ser, por isso, ele sempre foi, é e será. Mas, não existe. Porque quem existe é quem foi criado ou projetado e concluído por alguém superior. Logo Deus é.
(Áteon)  - Mais uma vez consegues ludibriar-me. Quem sabe da próxima convenço-te do ateísmo?
(Cristion)- Quem sabe.


Érick Freire
Pedagogo e escritor

3 Responses so far.

  1. Os nomes dos personagens são bastante sugestivos, e o enredo instigante. Particularmente, senti falta de ''algo mais'' no desfecho. A estória foi linear do início ao fim. Penso que poderia haver um pouco mais de emoção ou suspense. Faltou explorar mais a profundidade que o assunto sugere. É minha opinião. Mas talvez o problema esteja em mim... é que sou muito exigente, e às vezes chato. rsrs... Um forte abraço.

  2. Entendo Galileu. A conversa entre os personagens é em um âmbito um pouco filosófico-poético e por isso tem uma linearidade. Não é um texto de suspense, mas explicativo. Entendeu?

  3. Ok. Entendi. Sou fraquinho em filosofia, rsrs... sendo assim, o texto cumpriu seu objetivo.

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